Memórias, Silêncios e Silenciamentos

Seminário: «Memórias, Silêncios e Silenciamentos»

Docente: Rui Bebiano

Neste seminário, que desenvolverá competências específicas no domínio da história cultural, são propostos três objectivos no campo da formação, apontando-se depois para o desenvolvimento de seis vectores de investigação que com eles se relacionam. O suporte temporal na qual se apoiará o trabalho de exame teórico e de pesquisa documental a desenvolver reporta-se ao período de cerca de seis décadas que se inicia no imediato pós-Segunda Guerra Mundial e se estende até à actualidade, integrando-se assim no campo próprio da chamada história do presente.

O primeiro objectivo é o de observar e estudar o carácter polissémico do conceito de memória. Promover-se-á uma abordagem compreensiva do vínculo estabelecido entre a constituição da memória individual, os processos de construção e de reconstrução da memória colectiva (a partir da leitura de Maurice Halbwachs e da sua crítica), e as escritas e reescritas da História que com eles se interligam. Examinar-se-ão então os cruzamentos entre os processos de obtenção, de recuperação e de enunciação da memória e as condicionantes variáveis de natureza cultural, política ou metodológica que determinam inclusões e exclusões de períodos, actores, tendências ou factos do passado.

O segundo objectivo é o de promover a compreensão da dimensão simbólica do silêncio e do não-dito como processo que resulta, em larga medida, de uma escolha sustentada pela manipulação da memória. Desenvolver-se-á aqui uma reflexão sobre a «arqueologia do silêncio» (seguindo a expressão de Michel Foucault), o seu valor significante e «fundador», e a sua historicidade, sugerindo-se, na esteira da proposta de Eni Puccinelli Orlandi, a distinção, de natureza eminentemente política, entre um «silêncio constitutivo» pleno de sentidos (para dizer é preciso não-dizer, calar é falar, uma palavra apaga necessariamente as outras) e um «silêncio local» que identifica o que é proibido dizer numa determinada conjuntura e actua, apoiado na censura e nos múltiplos mecanismos de silenciamento, através do estabelecimento de exclusões e de interditos.

O terceiro objectivo aponta para o estudo objectivo dos actos de silenciamento e procura estimular, a partir do reconhecimento de conflitos, tensões e disputas em torno da memória, bem como da percepção das lembranças silenciadas, marginalizadas ou subterrâneas, a emergência de um discurso social que se aplica a sonegar uma parte do passado, e de um outro que procura esforçadamente resistir a este processo. Fá-lo a três níveis: o primeiro deles passa pela intervenção de meios que os mecanismos de coacção têm dificuldade em controlar de uma forma completa (cartas, panfletos, fotografias, anedotas, canções, práticas de luto e de lazer); o segundo assenta na construção de contranarrativas que se batem pela preservação de representações que aqueles mecanismos visam aniquilar (diários íntimos, tradição oral, práticas culturais não reguladas, formas de associativismo, esforços de preservação de tradições, práticas escapistas na vida privada ou colectiva, solidariedades que funcionam como elos de aproximação e factores de resistência à intervenção do poder silenciador); por fim, o terceiro nível incorpora o exame de práticas, saberes, regras e normas, potencialmente excludentes, que produzem o emudecimento.

A partir da materialização destes objectivos formativos, mas em íntima ligação com eles, proceder-se-á a uma abordagem de vectores de investigação que fundamentarão os trabalhos a produzir no âmbito do seminário e que poderão servir de preparação para a escolha e a definição temática de futuras dissertações de doutoramento. Eles serão seis:

  1. o estudo das condições de representação e de auto-representação histórica das minorias e dos excluídos;
  2. a observação das representações contemporâneas do passado na sua articulação com a ordem política e cultural;
  3. o exame de casos e de processos de escrita e de revisionismo histórico que se articulem com os silenciamentos ou a inversão da ordem do silêncio;
  4. o reconhecimento de momentos, de vozes, de formas e de lugares da resistência à imposição do silêncio;
  5. a percepção dos processos de construção de uma história alternativa, capaz de contornar a imposta pelos agentes do silenciamento;
  6. a compreensão do funcionamento dos mecanismos emudecedores e o reconhecimento das suas ferramentas.

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