Poética e Cidadania

Seminário de Teoria da Literatura: “Poética e Cidadania”

Docente: Graça Capinha

“Já não podemos ignorar a ideologia, ela tornou-se numa linguagem lírica muito importante”
Lyn Hejinian

“Falar é apenas o cumprimento de uma missão científica”
Fernando Lemos

Este seminário pretendo levar a cabo uma reflexão sobre o poder e a linguagem, partindo de uma metodologia que parte da proposta de uma hermenêutica diatópica (Boaventura de Sousa Santos) para uma hermenêutica dia(poli)tópica. Os seus dois objectos de estudo serão a poesia L=A=N=G=U=A=G=E norte-americana e a poesia dos emigrantes portugueses nos EUA, entendidos como dois exemplos de literatura menor (Deleuze e Guattari), definida pela errância e pelo nomadismo. Estas formas literárias — no seu descentramento vanguardístico e nacional, respectivamente — produzem uma desterritorialização da palavra que se manifesta num anti-formalismo, radicalmente formalista, a questionar os centros e margens (do texto, da nação e do sujeito poético) presentes no senso-comum. Neste seminário, procurar-se-á criar um diálogo que assente na consciência da incompletude: entre culturas, entre saberes, entre discursos científicos, entre diversas manifestações de carácter simbólico (de que a poesia é apenas um exemplo), entre realidades políticas e sociais distintas. A impossibilidade da totalização da perspectiva e, sobretudo, da totalização discursiva procura um olhar complexo sobre a complexidade. Aí reside o interesse pelas poéticas disjunctivas (Quartermain) em causa. Charles Bernstein, um dos “inventores” do movimento L=A=N=G=U=A=G=E, afirma mesmo que a poesia é pesquisa epistemológica, exigindo, além de uma lógica discursiva e sequencial, também uma lógica espacial, igualmente inerente ao mundo e ao “eu”.

Hoje em dia, num universo científico nunca antes tão transnacionalizado, as teorias sobre a complexidade, as fronteiras e as configurações, quer identitárias quer linguísticas, emergem de quase todas as áreas de investigação, levando-nos à observação das práticas e/ou linguagens sociais — as literárias incluídas — como sistemas de fractais, rizomas, mapas em permanente construção e desconstrução, que, à dialéctica, preferem a proliferação. Concebem-se formas e imagens complexas, sempre por terminar, sempre em movimento, em expansão no espaço/tempo — sempre incompletas — a ordem possível do caos num mundo e numa linguagem a fazer-se. É este tipo de resistência, esta luta para encontrar formas contra-hegemónicas e emancipatórias, esta luta para encontrar uma linguagem adequada, não só para reflectir, mas também para interferir no presente que encontraremos na poesia a estudar, considerando, é claro, os diferentes graus de resistência e diferenças de escala neste tipo de desafio — também na poesia da emigração.

As identidades, não existindo fora da linguagem, construindo-se dentro dos poderes e hierarquias que a estruturam, são necessariamente objectos literários e linguísticos. Daí o interesse do discurso poético, por excelência um discurso do “eu”, ou, melhor dizendo, dos vários e falsos “eus”: sempre em processo de transformação. As hierarquias de poder na linguagem manifestam-se nos poemas dos emigrantes, exigindo um permanente processo de luta e negociação, ecologicamente necessário quando se procura sobreviver num contexto que os remete para a subalternidade. Trata-se de uma inevitabilidade que decorre do sincretismo estrutural de tempos e espaços sociais distintos em que a sua vivência se inscreve.

O seminário discutirá conceitos como “disrafia” ou “disrafismo” (Bernstein), “malformação” (Perloff), “gaguejar” e/ou “coxear” (Mackey), “objectividade fantasma” (Taussig), “mono-polí-logo” (Howe), “carnavalização (Bakthin), “interrupção” (Irene Ramalho Santos), “ventriloquia” (Armantrout), “diferendo”  (Lyotard), “violência da linguagem” e “nonsense” (Lecercle), “différand” (Derrida), “passagem” (Duncan) — procurando um novo senso-comum (Boaventura de Sousa Santos). Essa, a pesquisa epistemológica levada a cabo por estes poetas.

Trata-se de um esforço emancipatório que vai no sentido de um projecto que, sendo poético, é radicalmente político e cosmopolita na sua recusa do “lirismo” ideológico, na sua recusa das hierarquias de poder no discurso que nos fala, na sua opção por uma “literatura menor” como exercício de cidadania. Num mundo em que cada vez mais se torna claro que a crise é, não uma fase, mas uma função do processo, talvez a consciência do poético tenha mesmo que acompanhar o conhecimento descentrado de si e do mundo. A importância desta poesia reside na forma como constrói e guarda a história das suas comunidades, assim claramente recolocando o discurso poético e a sua relevância social no âmago da sua origem bárdica. Simultaneamente, estas vozes oferecem-nos, na materialidade do seu trabalho, um microcosmos onde podemos observar, para tentar compreender, a nossa realidade de múltiplos poderes e múltiplas identidades em conflito — uma multiplicidade e um conflito inerentes à própria linguagem e uma tentativa de compreensão imprescindível a uma cidadania activa. O silêncio – tal como Jean-Jacques Lecercle o concebe – revela-se como o espaço excessivo onde todas as possibilidades de articulação (o não-dito, o ainda-por-dizer, o inaudito) se oferecem à tribo: em toda a violência criativa e/ou agonista de potencialidade infinita de sentido.

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